Números não mentem, mas os mentirosos adoram números
Mas a senhora quer saber como cheguei às minhas escolhas de hoje? A resposta é simples: quando um homem trabalha em contato com o sofrimento, ele sempre acaba se emprenhando com esse movimento.
http://www.socialistamorena.com.br/entrevistas-historicas-oriana-fallaci-entrevista-dom-helder-camara/
O Possibilismo
Pois estive pensando: de fato a política do “façamos o que está dentro do possível”, ou possibilismo, acaba sempre por ser o guarda-chuva que progressistas inocentes e bem intencionados criam e, sem querer, abriga toda corja de covardes pintados de progressistas, sem a sanha de se mudar o que é necessário.
V. B. Fernandes
“Neste equívoco repousa a controvérsia sobre o tempo histórico da frente de expansão e o tempo histórico da frente pioneira, pois não se reconhece que o tempo histórico de um camponês dedicado a uma agricultura de excedentes é um. Já o tempo histórico do pequeno agricultor próspero, cuja produção é mediada pelo capital, é outro. E é ainda outro o tempo histórico do grande empresário rural. Como é outro o tempo histórico do índio integrado, mas não assimilado, que vive e se concebe no limite entre o mundo do mito e o mundo da história. Como ainda é inteiramente outro o tempo histórico do pistoleiro que mata índios e camponeses a mando do patrão e grande proprietário de terra: seu tempo é o do poder pessoal da ordem política patrimonial, e não o de uma sociedade moderna, igualitária e democrática que atribui à instituição neutra da justiça a decisão sobre litígios entre seus membros. A bala de seu tiro não só atravessa o espaço entre ele e a vítima. Atravessa a distância histórica entre seus mundos, que é o que os separa. Estão juntos na complexidade de um tempo histórico composto pela mediação do capital, que junta sem destruir inteiramente essa diversidade de situações.”
José de Souza Martins. O tempo da Fronteira. Em: Fronteira: a degradação do Outro nos confins do Humano. Editora contexto, 2009. p. 139.
“Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria?”, pergunta ela. “Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo”.
Maria Rita Kehl afirma que o Brasil mudou para melhor, “ao contrário do que pensam os indignados da internet”. E prossegue: “Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200?”
O artigo critica ainda os “cidadãos de classe A” que desqualificam a seriedade do voto de quem está saído da miséria: “Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos”, conclui a autora.
Capital financeiro, Lula e escandalos de 2005
Thus, we have today an alliance between a politically hegemonic sector integrated by big financial capital, domestic and foreign, and a politically subordinated sector made up of the industrial bourgeoisie and focused on exports. The Brazilian state, representing imperialism and finance, has redirected industrial production and placed renewed importance on agricultural exports and thus further consolidated the bloc in power around a neoliberal capitalist model. The political consequence of this has been a boost for financial capital’s hegemonic position within the bloc in power by alleviating the situation of the export-based industrial bourgeoisie and the agricultural bourgeoisie.
This new bourgeois unity explains why the corruption scandals suffered by Lula’s administration in 2005 did not place his mandate in peril at any point.
BOITO, Armando. Class Relations in Brazil’s New Neoliberal Phase. Latin American Perspectives, vol.34, No.5, Brazil under Cardoso (Sep., 2007).
p. 121-122.
Sobre evidências, dados e metodologia científica
(http://plato.stanford.edu/entries/evidence/)
The slogan ‘the priority of evidence to theory’ has sometimes been employed in an attempt to capture this general theme. However, this slogan has itself been used in a number of importantly different ways that it is worth pausing to distinguish.
First, the claim that ‘evidence is prior to theory’ might suggest a simple model of scientific method that is often associated (whether fairly or unfairly) with Francis Bacon. According to the model in question, the collection of evidence is temporally prior to the formulation of any theory or theories of the relevant domain. That is, the first stage in any properly-conducted scientific inquiry consists in gathering and classifying a large amount of data; crucially, this process is in no way guided or aided by considerations of theory. Only after a large amount of data has been gathered and classified does the scientist first attempt to formulate some theory or theories of the domain in question. On this model, then, evidence is prior to theory within the context of discovery. This model—which Hempel (1966) dubbed ‘the narrow inductivist account of scientific inquiry’—is now universally rejected by philosophers. For it is now appreciated that, at any given time, which theories are accepted—or more weakly, which theories are taken to be plausible hypotheses—typically plays a crucial role in guiding the subsequent search for evidence which bears on those theories. Thus, a crucial experiment might be performed to decide between two rival theories T1 and T2; once performed, the outcome of that experiment constitutes an expansion in the total evidence which is subsequently available to the relevant scientific community. If, however, the two leading contenders had been theories T1 and T3, a different crucial experiment would have been performed, which would have (typically) resulted in a different expansion in the total evidence. The point that the formulation of hypotheses is often temporally prior to the collection of evidence which bears on their truth (and that this priority is no accident) is perhaps most immediately apparent on Popper’s falsificationist model of science (1959), according to which exemplary scientific practice consists in repeatedly attempting to falsify whichever theory is presently most favored by the relevant scientific community. But it is no less true on other, less radical models of science, which (unlike Popper’s) allow a role for confirming evidence as well as disconfirming evidence. As Hempel puts the point,
In sum, the maxim that data should be gathered without guidance by antecedent hypotheses about the connections among the facts under study is self-defeating, and it is certainly not followed in scientific inquiry. On the contrary, tentative hypotheses are needed to give direction to a scientific investigation. Such hypotheses determine, among other things, what data should be collected at a given point in a scientific investigation (1966, p. 13).[27]
Lenin e as especificidades do seu método dialético
A particularidade do marxismo de Lenin nesse período é que nele o método transforma-se em política com a mediação do partido. Nisso a dialética em Lenin afasta-se decididamente de uma concepção meramente especulativa do real. O método dialético incorpora uma dimensão partidária na medida em que: 1) ele é o resultado e parte do antagonismo social; 2) ele encerra um programa de transformação da realidade por meio da ação do partido.
A metodologia lenineana recusa, desse modo, tanto o subjetivismo como o objetivismo vulgar. O eco da Methodenstreit alemã ouve-se claramente na Rússia. O debate não reproduz, entretanto, as mesmas linhas divisórias estabelecidas pela Escola Histórica Alemã de Gustav Schmoller e pela nascente Escola Austríaca, de Carl Menger. Assim como Menger, Nicolai Mikhailovski sustentava um subjetivismo radical, afirmando ser o “indivíduo vivo com todas duas idéias e sentimentos” o “agente da história por conta erisco”. Mas a defesa da neutralidade axiológica do conhecimento científico, princípio caro a Menger, era feita por Piotr Struve contra Mikhailovski em nome da objetividade de “tendências históricas invencíveis, que como tal devem servir, por um lado, como ponto de partida e, por outro, como limite necessário para toda atividade orientada dos indivíduos e grupos sociais.” Nada que um marxista vulgar não objetasse ao idealismo.
Mas não era essa a posição de Lenin. Ele recusava a neutralidade axiológica dos chamados objetivistas sem recusar, entretanto, o objetivismo como método. Os objetivistas afirmavam a necessidade, ou seja, a inevitabilidade de um dado processo histórico tornando-se primeiro prisioneiros e depois apologistas dos fatos. Daí transformarem a crítica ao excepcionalismo do desenvolvimento da sociedade russa, apregoado pelos populistas, em uma defesa apaixonada da modernidade capitalista do Ocidente. Lenin afastava-se decididamente tanto do eslavófilo Mikhailovski como do ocidentalista Struve, negando metodologicamente essas correntes afirmando as ferramentas teóricas necessárias à análise crítica do desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Ao contrário dos objtetivistas, afirmava Lenin, os materialistas remetem a uma dada formação econômico-social e às relações sociais antagônicas existentes e ao fazer isso dão ao seu objetivismo um conteúdo mais profundo e cheio de significado. Ao invés de se limitarem a afirmar a necessidade de um processo histórico definem seu conteúdo de classe e sua posição perante ele. A metodologia lenineana é, portanto, uma metodologia partidária. Afirmava Lenin:
“Em um caso dado, por exemplo, o materialista não se limitaria a constatar a existência de ‘tendências históricas irresistíveis’ mas apontaria a existência de certas classes as quais determinam o conteúdo de um dado sistema e excluem a possibilidade de qualquer solução que não a ação dos próprios produtores. Por outro lado, materialismo inclui partidarismo, por assim dizer, e impõe a adoção direta e aberta do ponto de vista de um grupo social dado em cada abordagem de eventos.”
A diferença entre os marxistas e os objetivistas reside, para Lenin, no fato de que os primeiros não recusam a priori uma tomada de posição e, por isso mesmo, fazem ciência com “espírito de partido”. O conhecimento científico (marxista) da realidade é, portanto, um conhecimento engajado na medida em que se constrói revelando aquilo que a ideologia burguesa tende a ocultar, a relação existente entre as classes sociais.
Excerto de Lenin e a filosofia: notas para uma leitura metodológica, de Álvaro Bianchi. 2004. p. 5-6
Hegel sobre o processo filosófico
“Do mesmo modo, a determinação das relações que uma obra filosófica julga ter com outras sobre o mesmo objeto introduz um interesse estranho e obscurece o que importa ao conhecimento da verdade. Com a mesma rigidez com que a opinião comum (Meinung) se prende à oposição entre o verdadeiro e o falso, costuma também cobrar, ante um sistema filosófico dado, uma atitude de aprovação ou rejeição (Widerspruch). Acha que qualquer esclarecimento a respeito do sistema só pode ser uma ou outra. Não concebe a diversidade dos sistemas filosóficos como desenvolvimento progressivo da verdade, mas só vê diversidade e contradição [mas só vê contradição nesta diversidade]”[2].
Hegel será o primeiro filósofo a ver a reflexão a respeito da história da filosofia como movimento central no interior do próprio fazer filosófico. Para Hegel, sistemas filosóficos não são passíveis de simples refutação, mas colocam para si uma integralidade fixa de problemas: “Cada filosofia é em si completa e tem, como uma autêntica obra de arte, a totalidade em si”[3]. Hegel será ainda mais claro em sua proposição da sistematicidade e comensuralibilidade dos sistemas filosóficos: “Mas se o absoluto, tal como a sua manifestação, a razão, é eternamente um e o mesmo, como de fato é, então, cada razão que se dirige e se conhece a si mesma produziu uma verdadeira filosofia e resolveu para si a tarefa que, tal como a sua solução, é a mesma para todas as épocas”[4]. Isto implicará em um fazer filosófico que verá a história da filosofia como história do movimento da razão em direção à sua auto-determinação enquanto ciência (Wissenschaft). A rememoração de cada momento é necessária na compreensão do que se coloca a um tempo como tarefa filosófica. Este é o sentido que podemos dar a metáfora usada por Hegel a fim de descrever o que está em jogo na passagem histórica de um sistema filosófico a outro:
“O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí (Dasein) da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor; essas formas não só se distinguem, mas também se repelem (verdrängen – mas cada uma recalca a outra) como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem (widerstreiten- longe de entrarem em conflito), todos são igualmente necessários”[5].
Vladimir Safatle. Curso de Hegel - transcrição de aulas. Aula 2/30.
http://projetophronesis.com/2011/06/06/vladimir-safatle-%E2%80%93-aula-230-%E2%80%93-%E2%80%98fenomenologia-do-espirito%E2%80%99-de-hegel/
Hegel e o conhecimento científico
To be sure, this experience “strictly speaking” is something quite different from the experience of vulgar science. The latter is carried out by a Subject who pretends to be independent of the Object, and it is supposed to reveal the Object which exists independently of the Subject. Now in actual fact the experience is had by a man who lives within Nature and is indissolubly bound to it, but is also opposed to it and wants to transform it: science is born from the desire to transform the World in relation to Man; its final end is technical application. That is why scientific knowledge is never absolutely passive, nor purely contemplative and descriptive. Scientific experience perturbs the Object because of the active intervention of the Subject, who applies to the Object a method of investigation that is his own and to which nothing in the Object itself corresponds. What it reveals, therefore, is neither the Object taken independently of the Subject, nor the Subject taken independently of the Object, but only the result of the interaction of the two or, if you that interaction itself. However, scientific experience and knowledge are concerned with the Object as independent of and isolated from the Subject. Hence they do not find what they are looking for; they do not give what they promise, for they do not correctly reveal or describe what the Real is for them. Generally speaking Truth ( = revealed Reality) is the coincidence of thought or descriptive knowledge with the concrete real. Now, for vulgar science, this real is supposed to be independent of the thought which describes it. But in fact this science never attains this autonomous real, this “thing in itself” of Kant-Newton, because it incessantly perturbs it. Hence scientific thought does not attain its truth; there is no scientific truth in the strong and proper sense of the term. Scientific experience is thus only a pseudo-experience. And it cannot be otherwise, for vulgar science is in fact concerned not with the concrete real, but with an abstraction. To the extent that the scientist thinks or knows his object, what really and concretely exists is the entirety of the Object known by the Subject or of the Subject knowing the Object. The isolated Object is but an abstraction, and that is why it has no fixed and stable continuity (Bestehen) and is perpetually deformed or perturbed. Therefore it cannot serve as a basis for a Truth, which by definition is universally and eternally valid. And the same goes for the “object” of vulgar psychology, gnoseology, and philosophy, which is the Subject artificially isolated from the Object — i.e., yet another abstraction.
Alexandre Kojève. Introduction to the reading of Hegel. Basic Books, 1969 [1934]. chapter 1.
http://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/works/fr/kojeve.htm
